O começo de ano é a melhor oportunidade de recapitular os melhores e piores momentos do ano que passou. Numa série de posts vou resumir minhas observações sobre o comportamento das empresas de médio porte no Brasil, resultado de dezenas de cursos de finanças e economia ministrados ao longo dos últimos anos em todas as regiões do Brasil. É muito comum ouvir platitudes sobre o comportamento dos empresários sem saber realmente como eles (e cada vez mais, elas) tomam decisões. Minha experiência revela que os empresários às vezes se comportam de acordo com os livros-texto, mas, em muitos casos, fogem completamente da racionalidade pura dos agentes econômicos. Minhas observações são anedóticas, ou seja, desestruturadas e recheadas de exemplos, mas carecem de substância científica (nesse momento, já que espero estudar algumas das características únicas dos empresários brasileiros no futuro). Em 2015, foram 40 dias de aulas no Sudeste, 7 no Sul, 5 no Norte, 2 no Centro-Oeste e 1 no Nordeste. No total, mantive contato direto com mais de 1.000 executivos, sendo cerca de 200 donos e/ou CEOs de médias empresas. Existe uma ligação direta entre o comportamento dos empresários e o crescimento do país, e precisamos que as médias empresas cresçam para que o país saia dessa imensa recessão. Minha primeira observação é que:

Empresário brasileiro não gosta de dinheiro.

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Tenho cada vez mais exemplos para apoiar essa paradoxal observação. Em muitos casos os empresários chegam mesmo a rasgar dinheiro. As empresas brasileiras tem um espírito animal baseado em duas características: busca incessante pelo crescimento e trauma em relação à hiperinflação do passado. Há muito mais ideias que dinheiro, o que é o inverso do mundo, no qual existe excesso de dinheiro e poucas oportunidades de investimento. A busca incessante pelo crescimento está relacionada, entre outros fatores, ao ego dos gestores, pois quanto maior a empresa, em termos de faturamento, maior a influência dos donos e gestores em relação a seus pares, associações comerciais, fornecedores etc. Não se deve subestimar o ego como propulsor de investimentos e várias empresas tem dificuldades de caixa por causa disso. Em vez de se perguntar qual o nível máximo de investimento que é possível dada a situação atual da empresa, muitos gestores criam planos de investimento ambiciosos que resultam em dificuldades de financiamento.

A relação do trauma e do caixa das empresas é também bastante interessante. Muitos empresários preferem fazer investimentos a manter dinheiro em caixa para aproveitar boas oportunidades. Em alguns casos, preferem fazer estoques elevados, mesmo que isso empate quantias significativas. É o raciocínio do passado, de quando tínhamos hiperinflação, e no qual deixar dinheiro parado era jogá-lo fora.

Além disso, a maior parte das famílias empresárias não está profissionalizada e, portanto, não saberia o que fazer com retiradas significativas das empresas. Assim, os gestores controlam o fluxo de caixa e distribuem muito menos dividendos do que poderiam para realizar seus ambiciosos planos de investimento. E isso quando os distribuem – conheço dezenas de empresas que simplesmente nunca distribuíram e nem pretendem distribuir dividendos. A retenção de dividendos também é uma forma de controlar o comportamento dos outros membros da família que, ao não receberem dividendos, viram dependentes das decisões dos gestores.

Claro que essas observações são gerais e nem todos os empresários e gestores atuam de forma tão irracional. Mas uma empresa, em particular, apresentou todas as características apresentadas acima e um pouco mais. O cenário: o fundador da empresa faleceu há cerca de três anos, deixando em seu lugar um CEO que trabalha na empresa há 30 anos, tendo entrado como estagiário e, ao longo do tempo, sendo preparado para assumir a empresa com a confiança plena do fundador. Esse CEO é extremamente competente como gestor da empresa, mas, como nunca trabalhou em outra companhia, toma sozinho todas as decisões e passa por cima de qualquer sugestão dos familiares do fundador, que não trabalham na empresa. Além disso, remunera os familiares com uma quantia pequena de dividendos, mantendo considerável quantia em caixa, sem qualquer necessidade de endividamento. Em uma conta simples de valuation, a empresa vale cerca de R$400 milhões de reais, mas os dividendos pagos aos familiares não chegam a R$300 mil por ano. O argumento do gestor é que a empresa precisa ter recursos para investimentos e que ele não quer se endividar, mesmo tendo tido oportunidades de captar recursos do BNDES a 2,5% ao ano em 2012. Os familiares estavam, no momento da minha aula, divididos entre aqueles que queriam substituir o CEO, mas com medo de não encontrarem alguém tão dedicado, ou simplesmente vender a empresa. E as ações do CEO nem podem ser explicadas por alta remuneração – ele não ganha mais que os presidentes de empresa da região.

Em outro caso, um empresário no Norte mostrou, orgulhoso, um galpão recheado dos seus produtos, com estoque para quase um ano, totalmente quitado com o caixa da empresa. Seu argumento: não há melhor uso do dinheiro dele ou da empresa do que “criar valor” com sues negócios.

Queria muito que esses casos fossem exceções, mas representam os comportamentos muitas vezes irracionais dos agentes econômicos, representados nesses casos por gestores de empresas. Por um lado, a vontade de crescimento favorece a economia brasileira. Por outro, a incompetência na gestão financeira faz com que muitas empresas fiquem longe de alcançar o seu valor, destruindo valor para seus acionistas e também para o resto da sociedade.